segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Homenagem - Viriato da Cruz



(Porto Amboim, Angola, 1928 - Pequim, China, 1973.)

Viriato Francisco Clemente da Cruz nasceu em Kikuvo, Porto Amboim em 1928. Fez os estudos liceais em Luanda.

Considerado um dos mais importantes impulsionadores de uma poesia regionalista angolana nas décadas de 40 e 50, caracterizando-se a sua obra pelo apego aos valores africanos, quer quanto à temática, quer quanto à forma. A sua produção está dispersa por publicações periódicas e representada em várias antologias, das quais uma - No Reino de Caliban - reúne a sua obra poética.
-------------------------------------------------------------------------------------

NAMORO



Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar
e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...

Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.



Mandei-lhe um cartão
que o Maninho tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...

E ela disse que não.




Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...



falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba*.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.

E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário



Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.


*Monangamba – Termo depreciativo para trabalhadores forçados no tempo colonial



Viriato Clemente da Cruz

4 comentários:

Anónimo disse...

Que lindeza de poema Rosa!
Mais um poeta pra minha coleção!
Obrigada querida.
Bjs.

NAMIBIANO FERREIRA disse...

Rosinha, o nosso Viriato merece esta linda homenagem. Este poema está musicado e cantando por vários cantores portugueses, entre eles Fausto e Sérgio Godinho e é sempre uma maravilha ouvi-lo. Um grande homem na nossa história e um dos poetas que me abriu o caminho da Poesia, da Poesia da nossa terra.Ele ainda hoje está, de certo modo, vivo nos meus versos.
Obrigado pela ajuda na pesquisa.
Kandandu

Rosita de Palma disse...

Oi Fátima,

Ainda bem que gostaste...na época da escola no ensino bàsico, li muito os poemas dele em dias de leitura...poemas bem lindos!

Kandandu!

Rosita de Palma disse...

Bom dia Namibiano,

É verdade, a ideia de homenagear Viriato, surgiu depois de ouvir Rui Mingas a interpretar os poemas dele, fiquei encantada e disse: devo partilhá-los lá no meu espaço!

E voilá.

Kandadu!